Como organizar uma chamada de palestrantes (CFP) passo a passo
Como abrir, divulgar e avaliar uma chamada de palestrantes: formulário, prazos, critérios, avaliação anônima e comunicação com quem foi ou não aceito.
· 7 min de leitura
Para organizar uma chamada de palestrantes (call for papers, ou CFP), defina primeiro os temas e formatos que você quer na agenda, publique um formulário curto com prazo claro, divulgue nas comunidades certas, avalie as propostas com critérios escritos e responda a todas as pessoas, aceitas ou não. Uma boa chamada não serve só para encher a agenda: ela traz vozes novas, mostra para patrocinadores que a comunidade está ativa e reduz a dependência dos mesmos palestrantes de sempre.
Chamada aberta, convite ou os dois?
Há três formas de montar a agenda:
- Só convite. Você escolhe cada palestrante. Rápido e previsível, mas tende a repetir os mesmos nomes.
- Só chamada aberta. Qualquer pessoa envia uma proposta. Traz diversidade e surpresas, mas exige tempo de avaliação.
- Misto. Você convida as palestras de abertura e encerramento e algumas pessoas-chave, e abre o resto. É o formato mais comum em conferências de comunidade.
Muitos eventos brasileiros de tecnologia usam chamadas abertas há anos. A Python Brasil 2025, por exemplo, publicou sua chamada de propostas em uma página própria, para atividades de vários níveis e temas, com o evento presencial em São Paulo de 21 a 27 de outubro de 2025 e transmissão ao vivo.
Passo 1: defina o que você quer receber
Antes de abrir o formulário, escreva:
- Trilhas ou temas. Três a seis trilhas costumam bastar. Descreva cada uma em uma ou duas frases, com exemplos do que entra e do que não entra.
- Formatos. Palestra longa, palestra curta, lightning talk, workshop, painel. Diga a duração de cada um.
- Público. Iniciante, intermediário, avançado. Diga se o evento quer conteúdo para todos os níveis.
- Idioma. Português, espanhol, inglês. Em eventos com público de vários países da América Latina, aceitar propostas em espanhol amplia muito o leque de palestrantes.
- O que o evento oferece. Ingresso, passagem, hospedagem, cachê. Seja explícito: muitas pessoas não enviam proposta porque não sabem se terão como pagar a viagem.
Passo 2: monte um formulário curto
Pergunte só o que você vai usar para decidir e para publicar:
| Campo | Por que |
|---|---|
| Título | Vai para a agenda |
| Resumo público | Vai para o site, 500 a 800 caracteres |
| Descrição para a banca | Estrutura, o que o público vai aprender |
| Formato e trilha | Para distribuir na grade |
| Nível | Para equilibrar a agenda |
| Mini bio e foto | Vai para o site |
| Palestras anteriores ou vídeo (opcional) | Ajuda a avaliar quem já palestrou |
| Necessidades de viagem e acessibilidade | Para orçar e se preparar |
| Cidade de origem | Para orçar passagens |
Evite pedir dados que você não vai usar. Cada campo extra é um motivo para alguém desistir no meio.
Passo 3: defina datas realistas
Um cronograma típico tem cinco marcos:
- Abertura da chamada.
- Encerramento (com data e horário, incluindo fuso: lembre que o Brasil tem mais de um e que palestrantes de outros países vão ler o prazo).
- Avaliação.
- Comunicação das decisões.
- Publicação da agenda.
Deixe tempo entre a decisão e o evento para que as pessoas aceitas consigam autorização no trabalho, comprem passagens com preço razoável e preparem a palestra. Prorrogar o prazo uma vez é comum; prorrogar várias vezes passa a impressão de que ninguém está enviando.
Passo 4: divulgue onde estão os palestrantes
- Comunidades e meetups da sua área: grupos de WhatsApp e Telegram, Discord, listas de e-mail.
- LinkedIn, com um post pessoal dos organizadores, não só da página do evento.
- Palestrantes de edições anteriores, pedindo que indiquem outras pessoas.
- Grupos de diversidade em tecnologia, que costumam ter pessoas preparadas que não recebem convite.
- Universidades e grupos de pesquisa, se o evento tiver trilha acadêmica.
- Comunidades de outros países da América Latina, se o evento aceitar propostas em espanhol.
Uma mensagem pessoal funciona melhor que um post genérico: “Vi sua palestra sobre X no meetup Y, acho que caberia na nossa trilha Z. A chamada fecha em {{data}}”.
Passo 5: avalie com critérios escritos
Combine os critérios antes de ler a primeira proposta. Um exemplo de grade simples, com nota de 1 a 5 por proposta:
- Relevância para o público do evento.
- Clareza: dá para entender o que o público vai aprender?
- Originalidade: traz algo que não se vê em todo evento?
- Encaixe na agenda: equilibra trilhas, níveis e formatos.
Avaliação anônima
Esconder nome, empresa e bio na primeira rodada reduz o peso de “quem é a pessoa” e aumenta o peso de “o que ela propõe”. Ferramentas como o pretalx, software de código aberto usado por muitas conferências, permitem escolher entre avaliação anônima e aberta por evento. Uma prática comum é fazer a primeira rodada às cegas e só na segunda olhar o perfil, para equilibrar a agenda.
Quem avalia
- Pelo menos duas ou três pessoas por proposta.
- Pessoas de diferentes áreas e perfis.
- Quem tem conflito de interesse (mesma empresa, amizade próxima) se declara e não avalia aquela proposta.
Passo 6: decida e monte a agenda
Ordene as propostas pela nota média, mas não monte a agenda só pela nota. Verifique:
- Equilíbrio entre trilhas e níveis.
- Repetição de temas.
- Diversidade de palestrantes (gênero, região, empresa, nível de experiência).
- Custos de viagem que cabem no orçamento.
Guarde uma lista de espera: alguém sempre desiste.
Passo 7: comunique as decisões
Aceitos: envie a confirmação com prazo para aceitar, as informações práticas (data, sala provisória, duração, equipamento, apoio de viagem) e um pedido de foto e bio finais.
Não aceitos: responda a todos. Um e-mail educado, sem promessas vazias, que agradece e, se possível, explica o motivo geral (“recebemos muitas propostas sobre X”). Quem recebe resposta tende a enviar de novo no ano seguinte.
Lista de espera: diga com clareza que a pessoa está em lista de espera e até quando você pode chamá-la.
Passo 8: cuide de quem vai palestrar
- Uma conversa ou mensagem de alinhamento antes do evento.
- Prazo para enviar os slides, se houver tradução ou legendas.
- Orientação sobre o local, a sala, o microfone e o tempo.
- Ensaio técnico no dia, se possível.
- Depois do evento: agradecimento, link da gravação e feedback do público.
Erros comuns na chamada de palestrantes
- Formulário longo, com campos que ninguém vai ler.
- Prazo confuso, sem fuso horário.
- Não dizer o que o evento cobre (passagem, hospedagem).
- Avaliar sem critérios e decidir “no feeling”.
- Não responder a quem não foi aceito.
- Publicar a agenda tão tarde que o público não consegue se programar.
No BuildAConf, a chamada de palestrantes faz parte do site do evento: os palestrantes enviam propostas, sua equipe dá notas de 1 a 5 na caixa de entrada do organizador, pode aceitar várias de uma vez e, com um clique, a palestra entra na agenda e aparece no site e no app. Você também pode convidar pessoas do catálogo de palestrantes com um link pessoal. Saiba mais em buildaconf.com.
Perguntas frequentes
Quanto tempo a chamada de palestrantes deve ficar aberta?
Tempo suficiente para a divulgação chegar às comunidades e para as pessoas escreverem com calma, geralmente algumas semanas. Mais importante que a duração é anunciar o prazo com clareza e lembrar a comunidade perto do fim.
Devo pagar os palestrantes?
Depende do orçamento e do tipo de evento. Em eventos de comunidade é comum cobrir ingresso e, quando possível, passagem e hospedagem. O essencial é dizer na chamada exatamente o que o evento oferece, para ninguém descobrir depois.
Como aumentar a diversidade de palestrantes?
Divulgue em grupos de diversidade, convide pessoalmente, aceite formatos curtos para quem palestra pela primeira vez, ofereça mentoria para preparar a palestra e use avaliação anônima na primeira rodada.
O que fazer se chegarem poucas propostas?
Prorrogue uma vez, com divulgação direcionada, e complete a agenda com convites. Envie mensagens pessoais para quem palestrou em meetups da sua cidade: muita gente só envia proposta quando alguém pede.